Indiada - Crônica de Pedro Gonzaga

Mergulho em Cidreira

Assentemos que eu tinha 18 anos, era verão e aceitara o convite de passar uns dias em Cidreira na casa do meu amigo Jéferson. Combatíamos então numa banda chamada Senhora dos Afogados (homenagem a Nelson Rodrigues), e o plano era compor algumas canções num estilo que chamávamos sacripantismo, rude mistura de pobreza formal e misantropia lírica, antes dos tempos da correção política e da posterior moda de ser incorreto.

Caso soubesse me apiedar das coisas, verteria duas ou três lágrimas pelas paredes da garagem daquela casa. À noite, pervagávamos pelo calçadão. Éramos capazes de caminhar por horas a fio atrás de uma promessa de aventura, de alguma coisa além do cheiro dos crepes, do vento no rosto, da areia nos dentes. O nome disso era indiada, e talvez os mestres Cláudio Moreno e Deonísio da Silva possam explicar o porquê do termo, pois ainda estou para ver índios em tão ridícula cena.

De manhã, íamos à praia, e eu nadava para além da rebentação. Para mim, não há integração com o mundo natural mais potente aos sentidos do que boiar de costas no espaço onde já não há ondas, os ouvidos submersos, os olhos abertos ao azul que a tudo embala, o cheiro de sal, o gosto de sal, a pele resfriada pelo mar. Sempre que penso em O Estrangeiro, de Camus, volta-me a capacidade de Meursault de descrever o que é estar fisicamente numa praia.

Mais do que os quatro tiros no árabe, a insensibilidade diante da morte da mãe, o julgamento apatifado no final da narrativa, lembrar do livro é evocar essas sensações marinhas, mais intensas do que as reais, porque fixadas na primeira juventude, com a força indelével de uma primeira leitura.

Emerso de meu devaneio aqui, outra vez imerso no de lá, me deixava flutuar mar adentro. De súbito, alguma coisa se prende à minha perna. Me liberto num reflexo feito chute. Penso num tubarão, o do filme da infância, e me ponho vertical, jogador de polo, a olhar para os lados, e então a boia laranja, o bigode do salva-vidas dizendo que tinha vindo me resgatar. Nego o socorro, mas ele me diz que, aberto o procedimento, eu preciso sair do mar em sua companhia. E assim saímos nós, sob o olhar jocoso e inclemente de todos os veranistas.

Jéferson, honrando o sacripantismo, puxa uma salva de palmas, enquanto eu descubro, de sunga, Meursault em Cidreira, a fome de escândalo de todas as plateias.

© Pedro Gonzaga - Publicado em ZERO HORA (16 de agosto de 2017)

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